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Big Data (a partir) do Sul: O começo de um diálogo necessário

por Stefania Milan e Emiliano Treré

Traduzido do inglês por Marcelo L B dos Santos, Investigador do Centro de Investigación y Documentación (CIDOC) de la Universidad Finis Terrae, Chile (thank you very much!) e revisado por Sérgio Barbosa (Center for Social Studies, University of Coimbra, Portugal)

Dia 15 de julho de 2017 em Cartagena, Colômbia, derca de cinquenta acadêmicos e ativistas se juntaram para imaginar como seria ‘Big Data desde o Sul’. Organizados com poucos recursos e muito entusiasmo por nós dois* e antecedendo a conferência anual da IAMCR em Cartagena, o evento de um dia foi concebido para promover a mudança ‘dos meios às mediações, da datificação para o ativismo de dados’, como sugere o título. Pensamos que esta linda joia do Caribe, nas margens retirar vocábulo de um país que recentemente começou a inventar um futuro pacífico para si mesmo, seria o lugar mais apropriado para dar inicio a uma diálogo muito necessário sobre uma série de questões que nos têm mantido retirar vocábulo ocupados ao longo dos últimos anos: Como seria a datificação de cabeça para baixo? Que questões perguntaríamos? Que conceitos, teorias, métodos adotaríamos ou temos que desenvolver? O que perdemos ao ater-nos à(s) perspectiva(s) convencional(is) do Ocidente? Neste artigo, resumimos a conversa iniciada em Cartagena – com vistas ao futuro.

Datificação e seus descontentes: Para Além do Ocidente?
A datificação mudou radicalmente a forma que entendemos o mundo ao nosso redor. Entender o ‘big data’ significa explorar as profundas consequências deste giro computacional, as consequências para as epistemologias, ontologias e ética convencionais, bem como as limitações, erros e lacunas que afetam a coleta, interpretação e o acesso à informação em tamanha escala. Se renomados pesquisadores de diversas disciplinas já começaram a explorar criticamente as implicações da datificação através dos domínios social, cultural e político, grande parte desta produção acadêmica crítica emerge sob um eixo Ocidental conectando de forma idealizada o Vale do Silício, Cambridge, Massachusetts e o Norte da Europa. Acreditamos que falta algo nesta diálogo.

Não obstante, já sabemos muito. O emergente campo interdisciplinar dos estudos críticos de dados, na intersecção entre as ciências sociais e as humanidades, chama a atenção para a potencial desigualdade, discriminação e exclusão detrás dos mecanismos de big data (Gangadharan 2012Dalton, Taylor y Thatcher 2016). Recordamos que a problemática do big data não é meramente uma questão tecnológica ou o leme do conhecimento da inovação e da mudança, mas uma ‘mitologia’ a qual temos que indagar e abordar criticamente (i.e. boyd & Crawford 2012Mosco 2014Tufekci 2014Van Dijck, 2014). É uma questão que, apesar de tingida com narrativas positivistas e modernizadoras, e amplamente louvada por suas possibilidades revolucionárias em termos de, por exemplo, participação cidadã, não está isenta de riscos e ameaças, na medida em que regimes opacos de gestão e controle da população se tornam protagonistas (ver Andrejevic 2012Turow 2012Beer & Burrows 2013Gillespie 2014Elmer, Langlois y Redden 2015). A expansão das práticas de mineração de dados tanto por corporações como pelos estados levanta questões críticas sobre vigilância sistemática e invasão de privacidade (Lyon, 2014Zuboff 2016Dencik, Hintz y Cable 2016). Questões críticas também emergem das formas como o mundo acadêmico e o mundo dos negócios se relacionam de forma equivalente com a datificação: a ‘grandeza’ dos atuais enfoques sobre os dados vem sendo questionada mundo acadêmico (Kitchin y Laurialt 2014), e nos motiva a prestar atenção nas práticas cidadãs (Couldry & Powell 2014) e em formas cotidianas de engajamento com os dados (Kennedy y Hill 2017).

Mas como essa datificação se desenvolve em países com democracias frágeis, economias instáveis e pobres? Será que nossas ferramentas conceituais e metodológicas são suficientes para capturar e entender os obscuros desdobramentos e a espetacular criatividade que emerge da periferia do império? Convocamos os descontentes da datificação para juntar forças e enfrentar juntos estas preocupações – e criar perguntas mais críticas.

Do Sul/dos ‘suis’, para além do ‘universalismo de dados’… e o universalismo da teoria social

Acreditamos que é necessário desenvolver de forma sistemática um diálogo com tradições, epistemologias e experiências que desconstroem a dominação dos enfoques Ocidentais para a datificação, os quais não são suficientes para reconhecer a pluralidade, diversidade e riqueza cultural do Sul (dos ‘Suis’) (ver Herrera, Sierra y del Valle 2016). Tal como Anita Say Chan (2013), nós também sentimos que muitos enfoques críticos ainda se apoiam em um tipo de ‘universalismo digital’ que tende a assimilar a heterogeneidade de diversos contextos e invisibilizam as especificidades e as diferenças culturais. Gostaríamos de contribuir para o presente diálogo sobre a urgência de uma ‘Teoria do Sul’ que ‘questione universalismos no campo da teoria social’. Nos somamos a Payal Arora reivindicando que ‘precisamos de estudos conjuntos e sustentados no tempo sobre o papel e o impacto da big data no Sul Global’ (2016: 1693) – e, para avançar um passo adiante, ampliando o espectro para incluir todos os ‘Suis’ no plural que habitam nosso universo cada vez mais complexo.

Tal como Arora (2016) e Udupa (2015) nos recordam, apesar da maioria da população viver fora do Ocidente, continuamos enquadrando a maioria dos debates essenciais sobre democracia e vigilância – e as demais demandas associadas a modelos e práticas alternativas – por meio de preocupações, contextos, padrões de comportamento e teorias Ocidentais. Se bem reconhecemos as contribuições essenciais que muitos de nossos incríveis colegas (e nos desculpem se reitirar vocábulo não incluímos todos), sentimos que algo está faltando retirar vocábulo nesta conversa, e que só um esforço coletivo a través das disciplinas, idiomas e campos de pesquisa poderá nos ajudar a re-considerar big data a partir do Sul. Nossa definição de Sul é flexível e expansível, inspirada nos escritos do sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2007 e 2014), quem provavelmente foi o primeiro a escrever sobre a emergência e a urgência de epistemologias do Sul contra o ‘epistemicídio’ do neoliberalismo. Em primeiro lugar, está o Sul geográfico, isto é, as pessoas, atividades, políticas e tecnologias que emanam literalmente nas margens do mundo, tal como documentado pelo mapa de Mercator. Em segundo lugar, e mais importante, nosso Sul é um lugar de (e um signo que representa) resistência, subversão e criatividade. Podemos encontrar inúmeros ‘Suis’ também no Norte Global, sempre e quando haja gente resistindo à injustiça e lutando por melhores condições de vida contra o iminente ‘capitalismo de dados’.

Nossas reflexões sobre ‘big data do Sul’ se alinham com – e têm a esperança de alimentar – um processo mais amplo de re-posicionamento epistemológico das ciências sociais. Acreditamos que não podemos evitar medir as dinâmicas sócio-técnicas da datificação frente aos ‘processos históricos de despojo, escravidão, apropriação e extração […] centrais para a emergência do mundo moderno’ (Bhambra e de Sousa Santos 2017: 9), levando em conta os riscos de cometer os mesmos erros – e o mesmo pode ser dito em relação a nossas ferramentas pedagógicas. Como Bhambra e boaventura de Sousa Santos observaram com precisão, ‘como as injustiças do passado persistem no presente e demandam reparo (e reparação), nosso trabalho deve ser também estendido como estrutura disciplinar que mais obscurece que ilumina o caminho adiante’ (Ibid.).

Então, que implicações teria uma teoria de big data sulista?

Nós aceitamos o desafio de Say Chan (2013), quem nos recorda que há formas distintas de imaginar a relação entre tecnologia e as pessoas suprimir vocábulo. Aqui compartilhamos com vocês nossa crescente lista de condições sine-qua-non para pensar a datificação da perspectiva Sulista. A lista é um trabalho em andamento e vem acompanhada por um convite explícito para que se juntem conosco nesta empreitada.

  • Trazer o agenciamento para o centro da observação de mecanismos e práticas tanto de baixo para cima como de cima para baixo. Inspirados por Barbero (1987), devemos nos enfocar na resistência e na heterogeneidade de práticas na medida em que elas se relacionam com a datificação –não somente relacionadas aos dados e datificação per se.
  • Descolonizar nosso pensamento, circunscrevendo as dinâmicas pós-Snowden do capitalismo de dados dentro das especificidades do Sul. Se suprimir vocábulo muitos elementos serão equivalentes, as implementações, interpretações e consequências podem diferir. O que já sabemos não deve ser dado como certo, mas desvendado criticamente.
  • Prestar atenção para o ‘alternativo’: práticas alternativas, imaginários alternativos, epistemologias alternativas, metodologias alternativas em relação à adoção, uso e apropriação do big data. Preparar para o inesperado e o inexplorado. Esclarecendo: aqui as alternativas não são necessariamente subalternas ou melhores, são simplesmente distintas.
  • Tomar infraestrutura a sério, desvelando os fluxos complexos (de relações, dados, poder, dinheiro e contagem/contabilidade) que elas abrigam, geram, modelam e promovem (nosso agradecimento a Anders Fagerjord pela inspiração para pensar em fluxos). Situar noções como a de plataforma na experiência vivida de distintos países.
  • Conectar as epistemologias críticas dos mundos sociais emergentes com a política crítica da mudança social (obrigado a Nick Couldry por compartilhar sua visão sobre o tema em Cartagena – fiquem atentos para seu novo livro com Ulisses Mejias sobre ‘Dados, Capitalismo e Descolonizando a Internet’).
  • Assumir uma posição consciente e crítica em relação aos conceitos e métodos centrados na visão Ocidental. Se retirar vocábulo eles oferecem um ponto de partida fundamental, não podem ser assumidos automaticamente como o (único) ponto de chegada para aproximar-se ao big data desde o Sul.
  • Ao mesmo tempo, ser críticos em relação às práticas e formas de pensar do Sul, evitando assumir que eles são inerentemente diferentes, alternativos ou inclusive formas melhores ou mais puras de conhecimento.
  • Estar abertos ao diálogo, na direção que seja: Norte-Sul, Sul-Sul, Sul-Norte. Diante de tamanha complexidade, só podemos avançar juntos, engajando um diálogo com diferentes epistemologias e enfoques.

Posto isto, gostaríamos de encorajar nossos colegas a adotar mais explicitamente uma perspectiva de política econômica, que pode ajudar-nos a observar criticamente as múltiplas formas de dominação que reproduzem e perpetuam a desigualdade, a discriminação e a injustiça em todos os níveis. Também defendemos enfoques históricos que permitem conectar os atuais desdobramentos da datificação com suas raízes nas práticas coloniais, quando seja o caso (ver Arora, 2016). Sugerimos a adoção das críticas feministas e das ideias sobre a descolonização da tecnologia. Por último, consideramos este tipo de pesquisa como intrinsecamente ‘engajada’: se por um lado adotamos os altos padrões de uma sólida investigação científica, a ‘pesquisa engajada’ está autorizada a tomar partido e, mais importante, está projetada para ter impacto nas comunidades às quais nos aproximamos (Milan 2010). Este enfoque anda de mãos dadas com o estímulo à alfabetização crítica de meios e a educomunicação, através da qual inclusive acadêmicos buscam formas de tornar a informação acessível ao traduzi-la E-learning compreensível e litigável, com o objetivo de permitir a mais pessoas lutar por seus direitos digitais.

Um exemplo de enfoque big data a partir do Sul

Para tornar nosso chamado mais concreto, oferecemos nosso próprio trabalho como uma das muitas possíveis formasde virar ‘de cabeça para baixo’ o que sabemos sobre datificação. Emiliano vem estudando a fabricação algorítmica de consenso e a obstrução da dissidência online; seu trabalho delineia como formas inovadoras e criativas de resistência algorítmica estão nascendo na América Latina e em outros lugares (Treré 2016). Stefania e sua equipe tem estudado a emergência de data-ativismo de base (Milán e Gutiérrez 2015Milán 2017), de novas epistemologias de dados (Milan y van der Velden 2016) e de práticas de resistência à coleta massiva de dados na periferia do ‘capitalismo de vigilância’, inclusive na região amazônica (Gutiérrez e Milán 2017). Não obstante, temos que dar um salto avante e repensar também teoria de forma coletiva – isso significa com você – para além de casos de estudo e exemplos contingentes. Também não estamos só neste estudo já que temos muitos gigantes nos quais nos apoiar. Citando apenas aquele que inspirou nosso evento em Cartagena: verificar data atrás, o comunicólogo hispano-colombiano Jesús Martín-Barbero nos instigou a passar ‘dos meios às mediações’, ou seja, passar de análises funcionalistas centradas na mídia para a exploração das práticas cotidianas de apropriação de meios através das quais atores sociais decretam sua resistência à dominação e à hegemonia (1987). Este potente movimento que ele provocou era inerentemente político: significava reorientar nosso olhar das instituições midiáticas para as pessoas e suas culturas heterogêneas, observando como a comunicação é modelada nos bares, academias de ginástica, mercados, praças, familiares, entre outras. Seguindo Martín-Barbero, nosso trabalho tem sido orientado para concretizar o movimento da datificação no ativismo de dados, examinando as diversas formas através das quais cidadãos e a sociedade civil organizada no Sul (ou ‘Suis’) se envolvem com práticas para a mudança social de base relacionadas aos dados e resistem aos processos de datificação que aprofundam a opressão e a desigualdade.

Ainda há muito por ser feito e muitas conversas pela frente. Junto à Anita Say Chan, estamos lançando ‘Big Data from the South’, uma rede de acadêmicos(as) e profissionais interessados(as) em avançar neste diálogo multidisciplinar e multilinguístico. Junte-se a nós!

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Leia o call for ‘Big Data from the South’ (Cartagena, 15 de Julho de 2017)
Acompanhe o blog dedicado ao tema. Fique ligado: teremos até um logotipo! Planejamos começar a publicar artigos de convidados sobre o tema, em qualquer idioma que seja escrito. Estamos buscando suas ideias e provocações: para colaborar por favor dispare um e-mail para TrereE@cardiff.ac.uk e s.milan@uva.nl.

Sobre os autores (e situando o privilégio branco)

Acadêmicos interdisciplinares constantemente movendo-se entre os estudos da sociedade e suas imaginações e táticas tecnológicas; movimento, mudança e contraste têm estado no coração de nossa carreira acadêmica e de nossa identidade. Europeus do Sul que migraram para o Norte em virtude do eterno mal-estar do sistema italiano de pesquisa acadêmica, nos vemos como acadêmicos engajados que gostam de remexer as águas entre disciplinas e entre métodos. Stefania é Professora Associada em Novas Mídias e Culturas Digitais na Universidade de Amsterdam, afiliada também com a Universidade de Oslo e é a pesquisadora principal do DATACTIVE project. Emiliano é docente na Escola de Jornalismo, Mídia e Estudos Culturais da Unversidade de Cardiff, onde ele também é membro do Data Justice Lab e um Research Fellow no Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais COSMO (Itália). Anteriormente, ele foi Professor Associado na Universidade Autônoma de Querétaro, México. Ambos já conduziram pesquisa e já trabalhavam em diversos cargos em uma série de contextos “Sulistas”. Se bem escrevemos de uma posição privilegiada, vários Suis cruzaram nossas vidas pessoais e profissionais, instingando curiosidade, impondo desafios e ocasionalmente sofrimento, forçando-nos a fazer perguntas críticas a nós mesmos. Não temos muitas respostas. Melhor, queremos que este artigo de blog seja o começo de um diálogo e de uma rede aberta e colaborativa, onde diferentes Suis possam dialogar, aprender e enriquecer um com o outro.

*O evento foi possível graças ao financiamento do DATACTIVE/European Research Council e pelo generoso compromisso de Guillén Torres (DATACTIVE) e da Fundación Karisma (Bogotá). Também gostaríamos de agradecer a hospitalidade do comitê organizador local da IAMCT (e Amparo Cadavid da UNIMINUTO em particular).